Em Off…

Um blog por dentro do Brasil e do mundo

7

de
janeiro

Vai sobrar pra nós

por Luiz Augusto Gollo*

Ken Livingstone é inglês e prefeito de Londres, o que não é pouca coisa na ilhona da Inglaterra. Preocupado com o desperdício de água pelos moradores da cidade, ele levou adiante por 18 meses uma experiência doméstica de excelentes resultados, chamada “If it’s yellow, let it mellow”. Não traduzo porque em português perde a rima e a graça, o que importa é a idéia: ninguém dá descarga na privada se fizer apenas xixi em qualquer dos banheiros da casa, o que na certa deixa o ambiente com leve odor de amônia, mas por outro lado gera economia de água aproveitável em afazeres domésticos diversos, como cozinhar e lavar pratos, regar plantas e gramados e até beber, já que no chamado primeiro mundo o que sai da torneira pode ser ingerido sem susto.

Na sala de espera onde leio a revista antiga fico a imaginar na inesgotável criatividade dos ingleses, desde os tempos imemoriais em que se embrenharam pela África colonizando tribos primitivas, inventaram a bermuda, adotaram as camisas de mangas curtas, os chapéus de aba redonda e ainda misturaram o temível gim inglês com água tônica de quinino, antimalárico e antipirético, criando um dos coquetéis mais refrescantes e inebriantes dos trópicos. Houvessem os súditos da rainha colonizado o Brasil, não tenho dúvidas de que teriam inventado a caipirinha, o relógio de pulso, o avião e até a bicicleta do Leônidas da Silva.

Mas tudo são divagações para distrair da agonia do dentista. O exemplo do prefeito londrino merece aplauso e a adoção imediata pelas Nações Unidas, ao menos nos países do norte, onde o frio facilita um xixi suave, quase incolor e inodoro. Nas nossas latitudes, o calor senegalesco provoca suores abundantes, que tanto quanto os demais líquidos produzidos pelo corpo humano possuem cor e odor marcantes. E também por aqui está aquela que talvez seja a maior reserva de água doce do planeta, o Aqüífero Guarani, que ocupa 1,2 milhão de quilômetros quadrados, dos quais 71% se situam nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás.

Livingstone deve saber que muito embora mais de dois terços da superfície do planeta se componham de água, 97,5% são de água salgada, e dos 2,5% de águas doces 1,75% está nas calotas e geleiras polares e somente 0,75% pode ser aproveitável. E deve espantar-se muito mais do que nós com cenas comuns nas cidades brasileiras de pessoas lavando o carro, quintal e até mesmo “varrendo” calçada com água de torneira. Projeções das Nações Unidas prevêem para 2025 demanda de água potável 56% superior à oferta, e não se trata de palpite, mas de estimativas feitas a partir do crescimento populacional e da redução da oferta em conseqüência da poluição em geral e dos fenômenos dela resultantes, como o buraco na camada de ozônio, El Niño, La Niña e outros.

Além do Brasil, o Aqüífero Guarani se estende aos territórios da Argentina, do Paraguai e do Uruguai e tem na região da tríplice fronteira seu centro nervoso, na geopolítica deste começo de século. Foz do Iguaçu, no Brasil, Puerto Iguazú, na Argentina, e Ciudad del Este, no Paraguai, formam o tripé das organizações guerrilheiras do Oriente Médio na América Latina, com a presença dos grupos Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda e outros integrados à Irmandade Muçulmana e reunidos na Al-Jabbah al-Islamiyyah li-Qital al-Yahuda wal-Salibiyyn – em português, “Frente Islâmica Internacional para a Guerra Santa contra os Judeus e os Cruzados”.

Não é difícil estabelecer conexão entre esse pessoal e os atentados contra a embaixada israelense em Buenos Aires, em  março de 1992, e à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 94, além do primeiro contra o World Trade Center, em 93, em Nova York, quando morreram seis pessoas na explosão de um carro-bomba na garagem de uma das torres. O ataque de setembro de 2001 que destruiu o WTC fixou em definitivo a atenção da inteligência norte-americana, britânica e israelense neste pedaço de terra da América do Sul.

Neste cenário, é possível que a campanha “If it’s yellow, let it mellow” seja apenas uma idéia para evitar o desperdício de água em Londres. Mas é também possível que esta simples providência doméstica venha a repercutir por estas bandas e a América do Sul seja ameaçada pela internacionalização, da Amazônia à Patagônia. Exagero? Paranóia? O desempenho da dupla Bush-Blair desde a ocupação do Iraque, em março de 2003, recomenda no mínimo atenção redobrada.

*Luiz Augusto Gollo é jornalista; integrante do Conselho Editorial do Site Mandando Pra Rede (http://www.mandandoprarede.tk/); mantém o Blog Visão Crítica (http://lgollo.blog.terra.com.br) e colabora com o Blog Em Off.

Contato: emoff.blog@gmail.com

 

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